- 22 de maio de 2026
- Posted by: admin
- Category: Operadoras de Planos de Saúde
A judicialização da saúde suplementar talvez não esteja começando no jurídico.
Em muitos casos, ela começa:
- na demora da resposta;
- na sensação de abandono;
- na falta de clareza;
- na baixa resolutividade;
- na experiência negativa do beneficiário.
Durante muitos anos, a ouvidoria foi tratada apenas como um canal de atendimento complementar.
Hoje, isso parece insuficiente.
O aumento da pressão regulatória, do volume de manifestações e da sensibilidade dos beneficiários vem transformando a ouvidoria em um dos principais indicadores estratégicos das operadoras de planos de saúde.
O que o Relatório da Ouvidoria da ANS revelou
O Relatório de Gestão da Ouvidoria 2025 da Agência Nacional de Saúde Suplementar trouxe sinais importantes para o setor.
Segundo o relatório:
- 24,2% das manifestações recebidas estavam relacionadas à demora na resposta da demanda ou processo;
- 21,9% estavam ligadas à análise preliminar de NIP;
- mais de 710 mil manifestações foram tratadas pelas ouvidorias das operadoras. (gov.br)
Esses números mostram algo importante:
A experiência do beneficiário passou a representar um risco operacional e reputacional relevante para as operadoras.
A redução de reclamações não significa redução de risco
Outro ponto importante é que reduzir reclamações não significa, necessariamente, reduzir judicialização.
Dados divulgados em 2025 mostraram:
- redução de aproximadamente 17% nas reclamações/NIPs;
- crescimento de cerca de 7% nas ações judiciais relacionadas à saúde suplementar. (futurodasaude.com.br)
Esse comportamento pode indicar uma mudança importante no setor.
Talvez o problema não esteja apenas na cobertura assistencial.
Talvez esteja:
- na confiança;
- na previsibilidade;
- na percepção do beneficiário;
- na comunicação;
- no sentimento de acolhimento;
- na velocidade de resolução.
Em outras palavras:
a operadora pode até responder tecnicamente uma demanda, mas ainda assim falhar na experiência percebida pelo usuário.
Por que a experiência do beneficiário virou tema estratégico
A própria Agência Nacional de Saúde Suplementar vem reforçando temas como:
- linguagem simples;
- transparência;
- experiência do usuário;
- fortalecimento das ouvidorias;
- participação social;
- melhoria da comunicação institucional. (gov.br)
Isso mostra que:
a experiência do beneficiário deixou de ser apenas um tema operacional.
Ela passou a integrar:
- governança;
- risco regulatório;
- reputação;
- sustentabilidade;
- percepção institucional.
Operadoras que não conseguirem evoluir nessa agenda podem enfrentar:
- aumento de judicialização;
- desgaste reputacional;
- pressão regulatória;
- perda de confiança;
- aumento de custos assistenciais e jurídicos.
O que operadoras mais maduras estão fazendo
Operadoras mais maduras já começam a tratar a ouvidoria como núcleo estratégico de inteligência.
Entre as práticas mais relevantes estão:
Monitoramento de reincidência
Analisar:
- temas recorrentes;
- áreas críticas;
- operacionais com maior volume de manifestações;
- prestadores mais sensíveis.
Integração entre Ouvidoria, NIP e Jurídico
Cruzar informações entre:
- reclamações;
- manifestações;
- judicialização;
- temas assistenciais;
- negativas;
- prazos;
- reincidência.
Esse cruzamento permite identificar padrões antes que se transformem em crise.
Análise de causa raiz
Operadoras mais estruturadas não analisam apenas o sintoma.
Elas buscam identificar:
- origem do problema;
- falhas sistêmicas;
- gargalos operacionais;
- falhas de comunicação;
- problemas assistenciais recorrentes.
Indicadores executivos
Algumas operadoras já acompanham:
- tempo médio de resolução;
- reincidência;
- taxa de resolutividade;
- manifestações por tema;
- percepção do beneficiário;
- risco reputacional;
- temas com maior potencial de judicialização.
A ouvidoria como instrumento de governança e prevenção
A discussão sobre governança corporativa no setor vem crescendo fortemente nos últimos anos.
A própria RN 518 reforçou a necessidade de estruturas mais maduras de gestão, controle e monitoramento nas operadoras.
Nesse contexto, a ouvidoria pode assumir um papel estratégico:
- antecipação de risco;
- prevenção reputacional;
- inteligência regulatória;
- proteção institucional;
- sustentabilidade operacional.
A judicialização pode ser apenas a consequência final de falhas que começaram muito antes:
- comunicação ruim;
- baixa resolutividade;
- demora;
- ausência de acompanhamento;
- experiência negativa do beneficiário.
Indicadores que podem antecipar judicialização
Operadoras que desejam amadurecer sua gestão podem começar monitorando indicadores como:
- reincidência de manifestações;
- prazo médio de resolução;
- taxa de reabertura;
- manifestações relacionadas à demora;
- temas mais judicializados;
- taxa de conversão NIP → ação judicial;
- índice de satisfação pós-resolução;
- prestadores com maior volume de reclamações;
- negativas com maior recorrência.
Esses indicadores podem ajudar a transformar a ouvidoria em uma ferramenta preventiva — e não apenas reativa.
Conclusão
A saúde suplementar vive uma mudança importante.
A experiência do beneficiário deixou de ser apenas atendimento.
Ela passou a representar:
- risco regulatório;
- risco reputacional;
- risco jurídico;
- percepção institucional;
- sustentabilidade da operadora.
A pergunta estratégica talvez seja:
Sua operadora está apenas respondendo manifestações…
ou utilizando a ouvidoria para prevenir judicialização?